O aprendiz adulto de inglês

“A evidência mais forte para a noção de determinantes genéticas para a aquisição lingüística, deve ser que é humano ser um falante nativo”.

Paikeday (1985)

 

Muito se fala sobre relação criança/adolescente e o aprendizado de uma língua estrangeira. Se por um lado parece haver uma atenção especial voltada às capacidades de aprendizagem destes indivíduos, por outro parece haver um sentimento de impotência quando se fala de aprendizes adultos, como se não fossem capazes de dominar um segundo idioma. Em minha experiência pedagógica, percebo que este público parece ter internalizado uma crença de que jamais atingirá certo nível de fluência ou até mesmo de que nunca será usuário competente da língua inglesa por ter passado da infância ou da puberdade. Sabemos que a teoria do período crítico de aquisição linguística (Lennenberg, 1964) existe e que também é objeto de muito estudo e questionamento hoje em dia.

No entanto, é desnecessário dizer que, ao menos no contexto de aulas em empresas (in company), 100% dos alunos são adultos e aprendem inglês. Parto do mero princípio que, se realmente ninguém aprendesse, não haveria alunos e nem este tipo de curso. Sabemos que a situação é justamente contrária: em tempos de empresas globalizadas e de eventos esportivos internacionais, mais e mais pessoas procuram aprender ou aprimorar o inglês.

Já sabemos que adultos e crianças aprendem de formas diferentes e para propósitos diferentes. Ninguém exigirá de uma criança de seis anos que desempenhe atividades que requeiram o uso do pensamento abstrato, pela simples razão de este tipo de aprendiz ainda não ter condições para tais tarefas, dado o desenvolvimento maturacional previsto para esta idade. Também é claro que não haveria a necessidade de apressar este aluno a aprender termos de negócios, uma vez que este tipo de atividade não pertence ao seu contexto sócio-histórico. Da mesma forma, que sentido haverá para um aprendiz adulto decorar cantigas infantis e repetir frases descontextualizadas?  Afinal, aprendemos apenas aquilo que faz sentido para a nossa vida, para o contexto em que estamos inseridos.

Isso posto, passemos agora a examinar o aprendiz adulto de inglês. Lightbrown e Spada (2006) dizem que “todos os aprendizes, independente da idade, já dominam ao menos um idioma” (tradução minha). Brown (2001) afirma que, como adultos, contamos com o pleno desenvolvimento de nossas habilidades cognitivas. Lidamos melhor com regras, abstrações e conceitos. Temos o nosso conhecimento metalinguístico (conhecimento sobre o funcionamento das estruturas de nossa própria língua) e isso nos é de grande valia no aprendizado de uma língua estrangeira. Além disso, o aprendiz adulto traz para a sala de aula o seu vasto conhecimento de mundo, possibilitando ao professor o uso de inúmeras estratégias de aprendizagem e o estímulo ao aluno para que também o faça.

As atitudes em relação ao aprendizado também contam no momento de aprendizagem: geralmente há um propósito (pessoal ou profissional), uma expectativa e um objetivo bem claro sobre o que se fará com o idioma. Além disso, o foco de atenção do adulto é mais estável.

A principal questão a ser observada é que este aprendiz traz para a sala de aula inúmeras crenças de ensino e aprendizagem acumuladas ao longo de sua experiência de vida. E isto vai da forma pela qual o professor corrige – e se corrige – até ao syllabus (currículo de conteúdo) do curso. Como professores, não podemos nos esquecer de que este tipo de aprendiz tem um histórico, um passado de aprendizagem marcados, muitas vezes, pelo despreparo de certos instrutores e instituições ao lidar com este público. Afinal, quantos de nós já ouvimos de nossos alunos que tal professor ou instituição iria transformá-lo em “falante nativo”, e que, se não atingisse este objetivo, não seria fluente?Já se sabe que não é necessário para um aprendiz dominar o sotaque nativo do idioma para que haja comunicação efetiva. E que se assim fosse, uma boa parte do mundo, que não tem o inglês como língua nativa, não se engajaria nas diversas modalidades e gêneros de comunicação que regem as atividades humanas.

Fica evidente que o professor deve conhecer as diferenças e a fundamentação teórica que subjazem os estudos sobre estes aprendizes. Se assim o fizer, poderá orientar e mostrar ao aluno que é possível sim aprender uma língua estrangeira e se tornar usuário competente do segundo idioma na idade adulta.

 

BROWN, D.H. Teaching by Principles: an interactive approach to language pedagogy. 2.ª ed. New York: Longman, 2001.

LIGHTBROWN, Patsy M.; SPADA, Nina. How Languages are Learned. 3.ª ed.New York: Oxford University Press, 2006.

RAMPASO, Marianne. Resistência para aprender inglês: os fatores de resistência para o aprendizado do idioma. 2008. 79 pp. Monografia de conclusão do curso de pós-graduação em Língua Inglesa. São Paulo: Universidade São Judas Tadeu. Orientador: Profa. Dra. Sueli Salles Fidalgo.

 

Artigo escrito para SBS e-talks e publicado originalmente em:

http://www.sbs.com.br/virtual/etalk/index.asp?cod=1176#

 Por Marianne Rampaso*

 Biodata 

Graduada em Letras, com habilitação em Tradução e Interpretação Inglês-Português pela Unibero. Pós-graduada em Língua Inglesa pela Universidade São Judas Tadeu Professora habilitada para o ensino de Inglês para Propósitos Específicos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atualmente cursa o Teacher’s Link, na PUC-SP, voltado ao desenvolvimento de pesquisa e reflexão aplicadas à sala de aula de língua inglesa. Atua há mais de dez anos como professora especializada no ensino de inglês geral e para propósitos específicos para aprendizes adultos.

Coautora do site www.englishatwork.com.br e professora da divisão In Company da Seven Idiomas.

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